É inevitável o enfrontamento com as neuras do passado. O passado não
está lá, está atrás do véu que esconde a outra. A outra já está sob
forma de mais outra, que já foi outra e mais outra, mais, sempre mais,
uma e mais uma, sou todas ao mesmo tempo. Me torno outra para me amar, e
me amo menos, porque ainda sou outra, e aquela que fora abandonada,
grita, não entende porque não fora aceita. Então sofre. Sofremos nós. É
inevitável, nos enfrontarmos eu e quantas mais forem preciso. Nos
olhamos e nos despedimos tantas vezes, até que a primeira, a segunda, as
tantas ás escondidas teimam em gritar: Porquê? Olha pra mim. É através
de mim, que você, a soberana, tem vida, sem me causar a morte. Eu já fui
a soberana, sabe por que? Porque precisou de mim, e agora me descartas
como uma roupa suja. Não. Encare-me. Veja como sou, importante. Você era
o que queria, lembra-se? Bela, ansiosa por ver o mundo e também
mostrar-se. Qual o problema? Vorazmente viveu, conheceu terras e mares,
voou por sobre as vidas alheias deixando no ar seu perfume. Incendiou
lares e mentes. Retornou, fugiu denovo, se transformou até que não
reconhece-te nem mesmo no espelho. Ardeu. Rosnou. Quis corrigir o erro,
erro? És Deus para saber ao certo o que é o erro? Ou deu a posiçao de
Deus áqueles intrusos que respiram também do seu ar, do seu perfume e
que desejam sentir seu veneno. Sinta-se plena, pois és mulher, matéria
prima da vida, e a vida se transforma. Tu és vida, mas a nega, se
empaturra de bolos e comida, engole seu próprio veneno. Desistes de ser
tu, porque sabe o quanto custa o pensamento atrevido dessas pessoas,
custa-lhe a liberdade de não ser. Mas encara, tu és. És algo que não é
livre, nem és você, nem é nada. A menos que deixe o fogo arder em paz, a
menos que suspire o breve ar das fúteis rolinhas, a menos que descarte a
pose de dama do Olimpo, não és deusa, não és nada. És vida, de carne e
osso, que corrompe, que ri e chora, frágil e de pesada bagagem
simplória, que alguém há de achar e dar colo. Permita-se viver e pronto,
fazes o que queres fazer, não dê satisfação a ninguém, nem á tu, nem ás
outras, nem á lua.